Uma pesquisa desenvolvida pelo ituporanguense José Fernando Marquez avaliou o uso de herbicidas na semeadura direta da cebola. O estudo analisou produtos, doses e características do solo para identificar tratamentos com potencial de controlar plantas daninhas sem reduzir a produtividade.
O trabalho resultou na dissertação de mestrado em Produção Vegetal apresentada à Universidade do Estado de Santa Catarina, a Udesc. O professor Antônio Mendes de Oliveira Neto orientou a pesquisa, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina, a Fapesc.
José cresceu em uma família produtora de cebola e acompanhou as mudanças no sistema de cultivo. Segundo ele, a falta de mão de obra tem levado agricultores a substituir o transplante de mudas pela semeadura direta.
Semeadura direta reduz demanda por mão de obra
No sistema tradicional, o produtor forma as mudas em canteiros e depois realiza o transplante para a lavoura. Conforme os levantamentos utilizados na pesquisa, essa etapa pode representar entre 10% e 15% dos custos de produção. Já na semeadura direta, uma máquina deposita as sementes no local definitivo. Embora o equipamento exija investimento, o sistema pode reduzir despesas ao longo dos ciclos produtivos.
No entanto, o controle de plantas daninhas representa um dos desafios do método. A cebola apresenta crescimento inicial lento e demora para ocupar a área cultivada. “A cebola demora a crescer e a se estabelecer na lavoura. Diferentemente, as plantas daninhas têm uma capacidade maior de dominar a área”, explica o mestre em Produção Vegetal José Fernando Marquez. Essa diferença aumenta a disputa por água, luz e nutrientes durante as primeiras fases da cultura.
Pesquisa testou seis herbicidas em solos diferentes
Os pesquisadores dividiram o trabalho em três estudos. O primeiro ocorreu em casa de vegetação e avaliou seis herbicidas em diferentes doses. A equipe testou pendimethalin, pyroxasulfone, trifluralina, oxadiazon, S-metolacloro e linuron. Os experimentos utilizaram dois solos com teores distintos de matéria orgânica.
Um deles representava condições encontradas no Alto Vale do Itajaí. O outro apresentava características próximas às observadas na região de Curitibanos. “Nós partimos da premissa de que a matéria orgânica e a argila podem influenciar na seletividade dos herbicidas de pré-emergência”, conta José.
Ao final da primeira etapa, os pesquisadores selecionaram os produtos e as doses que apresentaram potencial para uso nos estudos seguintes.
Herbicidas também foram avaliados na fase de chicote
No segundo estudo, a equipe combinou os tratamentos pré-emergentes com uma aplicação de pendimethalin. Essa pulverização ocorreu na chamada fase de chicote, quando a primeira folha da cebola começa a se dobrar.
Depois, os tratamentos seguiram para experimentos de campo no Alto Vale e em Curitibanos. O objetivo foi comparar os efeitos em diferentes condições de solo e clima. Os pesquisadores analisaram o número de plantas, o desenvolvimento da cebola, o controle das espécies invasoras e a produtividade final.
Dessa forma, o estudo buscou verificar se as aplicações iniciais causariam algum impacto sobre os bulbos na colheita.
Matéria orgânica altera disponibilidade do produto
A matéria orgânica e a argila interferem na retenção dos herbicidas no solo. Em áreas com menor presença desses componentes, uma parcela maior do produto pode permanecer disponível para a absorção pelas plantas.
A umidade também modifica esse comportamento. Segundo José, a água pode ocupar espaços de retenção e aumentar a disponibilidade das moléculas do herbicida.
Por isso, a mesma aplicação pode apresentar respostas diferentes entre propriedades ou até entre talhões da mesma lavoura. O pesquisador aponta a necessidade de considerar as características de cada solo antes de definir o manejo.
Pendimethalin manteve produtividade nos testes
Nos experimentos de campo, o tratamento com pendimethalin apresentou o resultado mais consistente entre os produtos avaliados. A aplicação ocorreu após a semeadura e novamente na fase de chicote. “O tratamento teve bom controle das plantas daninhas sobre as quais o produto possui ação e não alterou a produtividade da cebola”, afirma José.
Segundo o pesquisador, o número de plantas e o diâmetro dos bulbos ficaram próximos aos resultados da área mantida apenas com capina manual. “Em relação à produtividade, o pendimethalin foi superior aos demais tratamentos avaliados”, acrescenta.
Os resultados, contudo, ainda não representam uma recomendação automática de uso. A aplicação de herbicidas deve seguir a legislação, a bula dos produtos e a orientação de um profissional habilitado.
Estudo busca preencher lacuna no plantio direto da cebola
As bulas disponíveis apresentam orientações voltadas principalmente ao sistema de transplante. Nesse modelo, a cebola chega à lavoura com cerca de três folhas formadas.
Na semeadura direta, porém, a planta permanece no local definitivo desde a germinação. Assim, ela pode entrar em contato com os produtos ainda nas primeiras etapas do desenvolvimento.
A literatura científica possui menos informações sobre aplicações realizadas logo depois da semeadura nesse sistema. Por isso, o estudo busca ampliar os dados disponíveis para as condições de Santa Catarina.
Experimentos continuam por mais uma safra
A equipe voltou a conduzir os experimentos de campo durante uma segunda safra. O objetivo é verificar se os resultados se repetem sob novas condições climáticas e produtivas. “O experimento está sendo conduzido novamente para verificar se esses dados realmente se confirmam”, informa José. Além disso, os pesquisadores preparam artigos científicos para publicação. O Laboratório de Plantas Daninhas e Herbicidas da Udesc também trabalha na elaboração de um informativo técnico.
A continuidade da pesquisa deverá fornecer novos dados sobre o controle de plantas daninhas na semeadura direta da cebola. Eventuais recomendações dependerão da confirmação dos resultados e dos procedimentos técnicos e regulatórios aplicáveis.
Ouça a reportagem de Berta Thiesen:
Tese de mestrado em fase de teste / Apresentação para banca da Udesc. Fotos: Arquivo / José Marquez