Quantas histórias de fantasmas você conhece? E quantas delas estão próximas de você? A noiva da curva, o som de uma carroça que ninguém nunca viu passar, uma pedra onde alguém teria enterrado um tesouro, a casa onde aparece alguém misterioso nas janelas… Aposto que você já ouviu alguma dessas.
Vamos a um exemplo bem famoso: Florianópolis é a Ilha da Magia, onde bruxas que vieram da Europa escondidas em navios fugindo da fogueira implantaram suas memórias. Essas mulheres conheciam seus corpos e conectavam a vida com os ciclos da natureza (afinal, a vida faz parte da natureza). Elas benziam os doentes e viam significado na lua, nas ondas, nas estrelas e até nas conchinhas do mar.
Eu cresci em uma casa de jornalistas, onde cada história ouvida merecia ser contada. O que descobri com o passar dos anos é que cada história vem com uma bagagem de crenças. Ainda criança, ouvi muita coisa sobre uma noiva que aparece na curva em Vidal Ramos. Meus olhos enchiam d’água só de pensar em um dia ver o fantasma de mais de dois metros de altura com seus longos cabelos pretos e vestido branco, dignos da Samara do poço, às margens da rodovia. Sempre diziam que ela era vista na última curva da descida da serra. Anos depois, descobri que, na verdade, ela ficava em um ponto mais acima, onde sempre há neblina.
Bom, se a noiva é real, não posso afirmar com certeza. Mas sempre passo lá fazendo figa nos dedos para evitar encontrá-la, especialmente à noite.
As lendas são criadas pelo próprio povo. Uns dizem que era uma moça que se acidentou no dia do casamento. Outros já falam que o noivo a matou por ciúmes e jogou o corpo no barranco. Cada um conta sua história, acompanhado de um bom café colonial ou de frutos do mar. Tudo depende de onde a história será contada. E essa história pode custar R$ 50 ou R$ 250, dependendo da experiência que vai me proporcionar.
Isso tudo, senhoras e senhores, se chama (pasmem): TURISMO!
Cada lenda brasileira é um código para algo maior. Seja ele de uma luta, de uma história, de uma classe da sociedade. O turismo é um dos maiores propulsores de causas que temos no mundo.
Do ateu ao cristão, todos podem dar as sete voltas em torno da figueira centenária do centro de Florianópolis fazendo seus desejos. No Rio Grande do Sul, em Sete Povos das Missões muitos vão para tentar ver as aparições sobrenaturais. Indo mais longe, bons leitores não entram no Louvre sem lembrar do Código Da Vinci e os segredos supostamente revelados por Dan Brown, assim como todos nós queremos chegar perto dos corpos mortos de santos espalhados pelo mundo, em busca de algo que falta aqui no lado esquerdo do peito.
Turismo é contar histórias de pessoas e lugares. É ter símbolos e rituais que geram um pouquinho mais de significado nessa passagem pela vida. Turismo é conseguir administrar um negócio concreto e abstrato ao mesmo tempo. Por isso você, que é entusiasta da sua cidade, enalteça seus fantasmas, honre as memórias, não os tema e faça com que eles vivam, mais do que nunca, na cultura de cada lugar.
Histórias de fantasmas - Imagem Ilustrativa. Foto: Geração de IA