Os aplicativos de relacionamento podem ser baixados sob inúmeras justificativas: “saio pouco e quero conhecer pessoas”, “é mais fácil conversar com alguém que já demonstrou interesse pela curtida”, “é só por diversão” ou até “para medir a febre”. Por trás dessas explicações, porém, muitas pessoas ainda alimentam a expectativa de encontrar alguém com quem possam construir uma relação.
O que nem todos percebem é que os aplicativos de paquera também funcionam por meio de algoritmos. Assim como ocorre no Instagram e no Facebook, nossas escolhas, preferências e interações são analisadas para definir quais perfis aparecerão na tela. Mais uma vez, somos interpretados por números que tentam prever nossos desejos.
No início, essa dinâmica pode trazer curiosidade e esperança. Há sempre um novo perfil, uma nova conversa e a possibilidade de que o próximo encontro seja diferente. Com o tempo, no entanto, a experiência pode gerar frustração, ansiedade e esgotamento. O fenômeno já recebeu até um nome: “burnout dos aplicativos de paquera”.
Dar um “match” não significa, necessariamente, estabelecer uma conexão. Entre a combinação de perfis, o início da conversa e um encontro presencial, muitas interações se perdem. Algumas terminam após poucas mensagens. Outras avançam até o encontro, mas não correspondem às expectativas criadas pela tela.
As conversas por texto também oferecem apenas uma visão limitada de quem está do outro lado. Tom de voz, postura, espontaneidade, humor e maneira de tratar as pessoas nem sempre cabem em uma fotografia ou em uma descrição de poucas linhas. Assim, uma imagem construída durante dias pode desaparecer em poucos minutos de convivência presencial.
A isso se somam experiências de assédio, abordagens invasivas, interações agressivas e a pressão para contratar funções pagas, apresentadas como meios de aumentar a visibilidade ou melhorar as chances de encontrar alguém. Para algumas pessoas, a busca por companhia acaba se tornando uma tarefa repetitiva, quase um segundo emprego emocional.
Outro comportamento recorrente é o chamado ghosting, quando alguém interrompe o contato sem explicação. A facilidade de desaparecer por trás de uma tela reduz o desconforto de encerrar uma conversa, mas transfere para a outra pessoa a dúvida sobre o que aconteceu. Nem sempre existe rejeição explícita. Há apenas silêncio.
Também chama atenção a velocidade dos julgamentos. Em poucos segundos, alguém pode ser descartado pela aparência, pela profissão, por uma frase ou por uma fotografia. A pessoa inteira passa a ser avaliada por uma vitrine cuidadosamente montada, na qual todos tentam parecer interessantes, disponíveis e emocionalmente resolvidos.
Para transmitir maior profundidade, os aplicativos passaram a incluir perguntas sobre personalidade, hábitos, valores e interesses. São informações que, fora das telas, provavelmente surgiriam aos poucos, durante conversas e experiências compartilhadas. Nos aplicativos, entretanto, elas se transformam em mais um critério para decidir rapidamente entre deslizar para um lado ou para o outro.
Especialistas ligados ao setor recomendam limitar o número de conversas simultâneas e priorizar a qualidade das interações. Manter poucos contatos por vez pode reduzir a sensação de excesso e permitir que cada pessoa seja conhecida com mais atenção.
Os aplicativos não são, por si só, responsáveis pela superficialidade das relações. Eles apenas ampliam comportamentos que já existem e oferecem uma quantidade quase ilimitada de possibilidades. O problema começa quando a promessa de escolha constante impede o envolvimento com aquilo que está diante de nós.
Talvez o cansaço desta geração não venha apenas da dificuldade de encontrar alguém. Pode nascer da impressão de que sempre existe outra pessoa a um toque de distância e de que nenhuma escolha precisa ser definitiva.
Coluna de Berta Thiesen, jornalista, especialista em neuropsicologia e marketing.
Imagem ilustrativa / Tinder. Foto: Cottonbro / Pexels