Meu ano de nascimento não começa com “mil novecentos e…”, o que faz com que você pense que já nasci com um celular na mão. A verdade é que faço parte de um seleto grupo de milhões de pessoas que viram coexistindo o CD, disquete, a internet discada, o computador de tubo, DVD, Nokia Tijolão, smartphone, os aparelhos MP3 e as câmeras digitais.
Convenhamos, ter contato com tudo isso é o que faz com que hoje eu digite sem olhar para o teclado, tenha amigos de várias nacionalidades no facebook, tenha tido algumas oportunidades estudantis maravilhosas... Além disso, também é um dos motivos pelos quais meu cérebro está sobrecarregado de informações que eu nem lembro, ocupando meu “HD” invisível da memória. Ou pelo menos é o que o mundo digital quer que eu acredite.
Se eu acredito que minha dopamina precisa ainda mais de rolagem de feed, posso continuar passando os vídeos em um círculo vicioso e me comparando com os cabelos, roupas, corpos e sentimentos que aparecem na minha tela, certo?
Tenho visto alguns conteúdos, especialmente em horários mais remotos da madrugada, que vêm com comentários tipo “desbloqueei o Instagram premium”, como se aqueles 30 segundos de tela fossem reveladores de uma realidade a qual a gente já deixou de viver há meses ou anos.
Eis o balde de água fria: ninguém é tão diferente de ninguém. A sua bolha de vídeos e postagens do instagram, tiktok - ou sei lá que plataforma você usa -, não é superior à de ninguém. É apenas diferente.
A gente se perdeu em bolhas que antes eram de sabão, mas que hoje são grandes de ferro. A questão é que as bolhas se tornaram gaiolas, mas as portas estão abertas. A gente não voa porque é ali que queremos ficar, confortavelmente recebendo exatamente o que estamos vibrando.
Foi provado em rede nacional que o algoritmo se constroi a partir do que se pesquisa. É um mecanismo altamente maleável, que muda conforme o humor de quem maneja um aparelho. Ele (ainda) não lê pensamentos, mas lê todo o comportamento humano de uma forma que prova, ainda mais, que a comunicação não verbal é uma das mais completas formas de expressão.
Hoje a gente só quer ser ouvido e as telas nos propiciam isso. Mas, no fim do dia, estamos tão conectados, que já nem ouvimos mais nossos próprios pensamentos, nem nossas vontades.
Ir contra a tecnologia não é uma opção, mas ouvir a si mesmo em momentos específicos é. O silêncio funcional pode promover a escuta do seu bem mais precioso: você mesmo. E não pense que vai ser de uma hora para outra, fazendo higiene do sono ou se desligando aos fins de semana. Escutar a si mesmo exige conexão, sem pressa, sem medo e sem afobação.
Escutar a si mesmo, nos dias de hoje, é seleção natural, para manter a humanidade viva e conectada com aquilo que realmente vale.
Coluna de Berta Thiesen, jornalista, especialista em neuropsicologia e marketing.
Conectados demais para escutar a si mesmos. Foto: Geração de IA