A área plantada com cebola deve cair cerca de 15% em Santa Catarina na próxima safra. A redução supera a projeção feita no início do ano, que indicava recuo próximo de 10%. Em municípios como Ituporanga e Imbuia, a queda deve ser ainda maior.
A estimativa é do engenheiro agrônomo e pesquisador da Epagri, Daniel Schmidt. Segundo ele, a diminuição ocorre após um período de expansão da cebolicultura catarinense e de preços baixos pagos aos produtores. “Nós temos uma estimativa de redução da ordem de 15% no estado de Santa Catarina. Alguns municípios, como Ituporanga e Imbuia, têm uma redução até um pouco mais alta”, afirma Schmidt.
Nos últimos anos, a área cultivada no estado se aproximou de 20 mil hectares. Ao mesmo tempo, outras regiões produtoras do país também ampliaram o plantio. Como consequência, segundo o pesquisador, houve excesso de oferta por aproximadamente um ano e meio.
Preços da cebola e El Niño pesam na redução da área
Dois fatores ajudam a explicar a decisão dos produtores catarinenses de reduzir o plantio. O primeiro é o resultado financeiro das últimas safras. O segundo envolve os riscos de produção diante da perspectiva de ocorrência do fenômeno El Niño.
“Os preços muito baixos recebidos na safra passada, acumulando já o problema da safra anterior, e as dificuldades de produção e os riscos que os produtores preveem com a questão do El Niño fizeram com que acontecesse essa redução de área”, explica o pesquisador.
Além disso, a diminuição não deve ocorrer de maneira uniforme. Enquanto municípios do Alto Vale apresentam retração acima da média, a estimativa é de uma redução menor no Planalto Catarinense.
Custo para produzir cebola chega a R$ 50 mil por hectare
O custo de produção também influencia o planejamento dos agricultores. Conforme Schmidt, produzir um hectare de cebola na região exige atualmente um investimento total entre R$ 40 mil e R$ 50 mil.
Esse cálculo considera custos fixos, como máquinas, instalações e terra, além das despesas anuais necessárias para conduzir a lavoura. Entre os principais componentes da conta está a mão de obra. “Na nossa região, o principal componente nos últimos anos do custo de produção tem sido a mão de obra”, afirma Schmidt.
O pesquisador estima que o custo médio para produzir um quilo de cebola fique próximo de R$ 1,50. Diante desse cenário, ele calcula que o produtor precisaria receber ao menos R$ 2,25 por quilo para obter margem que permita investimentos e continuidade na atividade. “O mínimo que o produtor teria que receber para permitir algum tipo de investimento, continuidade no setor, seria um rendimento de 50%. Teríamos que, no mínimo, estar vendendo cebola a R$ 2,25”, explica.
Segundo Daniel Schmidt, considerando os riscos associados à produção da hortaliça, um retorno maior exigiria preços próximos de R$ 3 por quilo.
Milho e soja devem ocupar parte das áreas de cebola
A redução projetada representa entre 2,5 mil e três mil hectares a menos de cebola em Santa Catarina. Parte dessas áreas deve receber outras culturas na próxima safra.
A tendência identificada pela Epagri é de migração principalmente para os grãos. Milho e soja aparecem entre as alternativas escolhidas pelos agricultores. “Com o custo mais alto para produzir cebola, com o risco mais elevado, porque é uma hortaliça num ano de perspectiva de ocorrência do fenômeno El Niño, os produtores têm substituído, de maneira geral, por grãos”, afirma Schmidt.
Segundo ele, grande parte da área retirada da cebolicultura provavelmente será convertida para milho e soja.
Mecanização avança nas lavouras de cebola em Santa Catarina
Além da redução de área, a próxima safra deve ampliar outra mudança na cebolicultura: a mecanização da implantação das lavouras.
A semeadura direta deve superar 50% da área catarinense de cebola neste ano, conforme a estimativa apresentada pelo pesquisador. Paralelamente, produtores também investem em alternativas de transplante mecanizado.
A mudança busca reduzir custos e, principalmente, diminuir a dependência de trabalhadores contratados em outras regiões. “É uma tendência e está ligada, eu acredito até, à própria sobrevivência da cultura da cebola aqui na região. A gente precisa conseguir trabalhar, principalmente na implantação, com uma dependência menor de mão de obra externa”, avalia Daniel.
Mesmo no transplante mecanizado, ainda existe necessidade de trabalhadores. No entanto, segundo o pesquisador, o sistema permite ampliar o uso de mão de obra regional e reduzir despesas e dificuldades relacionadas à contratação e ao transporte de equipes de outros locais.
Com menos área plantada e maior presença da mecanização, a próxima safra deve aprofundar o processo de ajuste da cebolicultura catarinense. A dimensão final da redução e o comportamento dos preços ao longo do ciclo devem influenciar os resultados dos produtores e da cadeia econômica ligada à cebola em Santa Catarina.
Confira os detalhes na reportagem de Jaciara Oliveira:
Plantio de cebola. Foto: Reprodução / Site Mais Agro